Poeiras em Aviários
out 19th, 2009 | By Ricardo Ribeiro | Category: Leis e ResoluçõesO presente artigo busca identificar os possíveis riscos à saúde dos trabalhadores relacionados à exposição a poeiras oriundas do trabalho em aviários, com o fim de auxiliar a elaboração do Programa de Proteção Respiratória (PPR) nesses locais.
Através de uma pesquisa bibliográfica buscando os tipos de poeiras e sua composição provável em aviários, procurou-se na literatura médica as doenças a elas ligadas, bem como se avaliou a lista de doenças ocupacionais da Previdência Social relacionadas à exposição a poeiras. Foram identificadas as doenças ou os danos que podem ter conexão com sua exposição. A partir dessa lista de doenças, buscaram-se os conhecimentos técnicos pertinentes indispensáveis à prática da Medicina do Trabalho no manejo dessas patologias, com referência na Classificação de Schilling em cada uma delas.
O Programa de Proteção Respiratória (PPR) tem por finalidade dar proteção contra a inalação de contaminantes nocivos e contra a deficiência de oxigênio no ambiente de trabalho. Pretende o presente artigo contribuir para a aplicação prática do programa de proteção respiratória nos aviários.
Os aviários utilizados pelas agroindústrias são estruturas retangulares que possuem uma área construída de aproximadamente 1.200 m². Geralmente apresentam uma grande porta de entrada em uma extremidade e, lateralmente, existe uma meia parede de tijolos, que é complementada até o teto por um aramado. Esse aramado possui, na face externa, uma cortina de plástico removível, conforme a necessidade dos animais por mais ou menos calor. Existem em seu interior bebedouros e comedouros dispostos no solo, além de grandes ventiladores para serem usados nos dias quentes ou, inversamente, aquecedores a gás, em caso de tempo frio. O piso cimentado é recoberto por um material chamado de maravalha, um composto que contém principalmente serragem de madeira, utilizado com a finalidade de absorver a umidade do galpão, diluir a matéria fecal e isolar as aves do contato direto com o piso, atuando como um colchão protetor. As tarefas principais do trabalhador de um aviário são disponibilizar água e ração, recolher e retirar aves mortas, remover a cama do aviário e realizar limpeza do local e arredores. Geralmente são abrigadas cerca de 23 aves por m² de construção.
Esses locais podem conter amônia (proveniente do metabolismo animal), monóxido de carbono (proveniente do aquecimento a gás), ácido sulfídrico (proveniente do esterco líquido) e poeiras orgânicas que permanecem no ar como bioaerossóis, contendo excrementos de aves, penas e caspa, insetos, ácaros e partes deles, além de microorganismos como bactérias, vírus e fungos, toxinas e histamina2. Embora em quantidade menor que em serrarias, pode ainda conter pó de madeira em suspensão, derivado da mistura do mesmo com a maravalha. A existência dessa poeira em suspensão deve-se principalmente à viragem da cama do aviário, atividade recomendada para aerar, aumentar a superfície de secagem e evitar aumento de temperatura do local, que, dependendo da fase de crescimento dos animais, é realizada até diariamente. O uso freqüente de ventiladores tem a finalidade de ajudar na secagem da cama e na renovação do ar nesses locais, sendo outro fator gerador de poeiras. Finalmente, a movimentação das próprias aves também contribui para a existência da poeira.
Observa-se assim a possibilidade de existência de dois tipos de poeiras nesse ambiente laboral: poeiras orgânicas e poeiras de madeiras.
Existem várias doenças relacionadas à exposição a poeiras em aviários que necessitam de um diagnóstico preciso, envolvendo procedimentos médicos variados, sendo elas: rinite ocupacional, carcinoma de seios da face, sinusite, asma ocupacional, pneumonite por sensibilidade, síndrome da poeira orgânica tóxica e doença pulmonar obstrutiva crônica. Esse conhecimento é indispensável à prática da Medicina do Trabalho nesses locais e o profissional necessita estar envolvido e familiarizado com essas doenças, a fim de bem caracterizar o nexo com o trabalho e realizar os procedimentos necessários ao diagnóstico e tratamento.
Na prática da Medicina do Trabalho relacionada a atividades em aviários, o conhecimento adequado a respeito dos riscos e das patologias a eles relacionados é um importante auxiliar na implementação e manutenção do PPR. Partindo-se desse conhecimento, torna-se mais eficaz o gerenciamento do programa, proporcionando um eficaz acompanhamento dos trabalhadores desse segmento.
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Francisco Cortes Fernandes
Médico Especialista em Medicina do Trabalho pela ANAMT; Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal
de Santa Catarina. Rua Fernando Machado, 533 D, Apto. 302, Chapecó, SC. Tel.: (49) 322-4603. E-mail: fcf@matrix.com.br
Publicado originalmente na Rev. Bras. Med. Trab., Belo Horizonte • Vol. 2 • No 4 • p. 253-262 • out-dez • 2004